Envelhecer em sociedade

Os velhos incomodam, mas afirmar isso, nos tempos atuais, é politicamente incorreto. É mais aceito qualificar os idosos como joviais, fofos, uma gracinha, está tão lúcido, enfim, elogios que camuflam uma discriminação a quem realmente são, sua história, seus valores e ao que representam. Tanto incomodam que vão para o escanteio, ou por moto próprio (por um “semancol”) ou por ação da sociedade.
Os velhos incomodam ao se tornarem mais limitados, física ou psiquicamente. Têm enorme dificuldade de se adaptar aos amplificadores auditivos; ouvem mal e por isso ou por qualquer outro motivo são alijados das conversas, não acompanham as tecnologias, perdem a relevância social e econômica, vão se tornando um peso.
Outros velhos incomodam. Incomodam por serem ativos, por terem valores claros, disciplina, opiniões, sinceridade que na juventude às vezes não aparece. Quando lúcidos e ativos, os velhos incomodam os jovens.
Eu gostaria de envelhecer como sempre gostei de viver, adequado à fase de vida. Na última fase da vida os projetos são mais curtos, os valores mais claros, as escolhas mais lúcidas. Os relacionamentos são mais antigos, mais enraizados e, ao mesmo tempo, constantemente renovados, ressignificados. Os aprendizados, destilados pelo tempo, mais verdadeiros. O legado – plante uma árvore, escreva um livro, participe de ações sociais – vai ganhando importância. Somos cadáveres adiados que procriam (Fernando Pessoa) ou durante toda a vida somos idosos incompletos, em formação; enfim, idosos não são eles, somos nós.
Há um momento, porém, em que o envelhecimento provoca uma alteração profunda. Em que nos tornamos uma pálida ideia de quem fomos um dia. É quando advém a fragilidade, a dependência, a demência e por aí vai. Quanto mais avançada a sociedade, melhor o amparo que receberemos nesta fase da vida. Tendo esta perspectiva, incorporando completamente a possibilidade de nos tornarmos dependentes, fica mais fácil empatizar com os idosos e cuidar adequadamente. Com esse olhar, já não cuidamos deles, cuidamos de todos nós. A educação é o maior patrimônio de uma sociedade. Ela é a mãe
do respeito, da consideração pela essência do ser. Ela que permite à sociedade prosperar em seus valores, diferenciando-se, criando uma cultura e tornando-se única. A educação de seres tão incompletos que somos se inicia em casa e continua na família ampliada, na escola e na vida. Valorizar o que aprendemos melhora nosso desempenho social e a sociedade de pessoas educadas respeita os seres mais vulneráveis, respeita a humanidade. Investir em educação é o que há de mais importante para termos uma sociedade desenvolvida e respeitadora de seus idosos.

Escrito por: ROBERTO SCHOUERI JR – GERIATRA CRM 48201

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